50º DIA MUNDIAL DA PAZ: “A NÃO-VIOLÊNCIA: ESTILO DE UMA POLÍTICA PARA A PAZ”

O ano novo é sempre carregado de significados, muitos fazem seus votos e propósitos para viver de uma maneira melhor ou de modo diferente. Para muitos é um recomeço. Por isso, não diferente de cada ano que se inicia, todos esperam que 2017 seja um ano repleto de realizações.

Entre os votos de feliz ano novo, a paz tem seu destaque especial. Afinal, já faz parte da nossa cultura passar a virada de ano com vestes branca, símbolo da paz. O primeiro dia do ano é dedicado ao “Dia Mundial da Paz”, instituído pela Igreja Católica no contexto da Guerra Fria em 1967, através do Papa Paulo VI. Desde então, muitas religiões e culturas celebram esta data festiva no mundo todo. Neste ano, comemora-se o 50º dia Mundial da Paz (1967-2017), e a mensagem que traz o Papa Francisco tem como tema: “A não-violência: estilo de uma política para a paz”.

O tema trata de dois âmbitos opostos, dois modos de se viver numa sociedade: a violência ou a paz. A difusão do foco de violência em meio a paz implica em consequências graves. Essa alternância entre violência e paz é resumida pelo Papa como “Terceira guerra mundial em capítulos” que sabotam a esperança, o progresso, a paz. Segundo o Papa Francisco, “esta violência que se exerce «aos pedaços», de maneiras diferentes e a variados níveis, provoca enormes sofrimentos de que estamos bem cientes: guerras em diferentes países e continentes; terrorismo, criminalidade e ataques armados imprevisíveis; os abusos sofridos pelos migrantes e as vítimas de tráfico humano; a devastação ambiental”.

 Portanto, a proposta da não-violência não é uma novidade, mas um reafirmar e um insistir num caminho de uma política para a paz. Todos querem paz por um motivo especial, dela vem a felicidade, não é possível ser feliz sem paz. A paz perpassa toda nossa vida desde o âmbito social, político, econômico até mesmo ao religioso; todas essas esferas afetam o nosso modo de viver, nosso estado psicológico. No final de contas, o que queremos é viver em paz com uma consciência tranquila. Esse é o anseio do ser-humano, então, por que não conseguimos trilhar um caminho para a paz?

Às vezes seguimos um caminho equivocado restringindo a paz ao sucesso profissional e econômico. Mas, se ampliarmos nosso horizonte, veremos a injustiça social permeada pela corrupção, que leva tantas pessoas a falta de oportunidades, ao desemprego, a falta de acesso à saúde, moradia, segurança etc. Parece que o tema da paz na nossa vida particular/pessoal tem muito mais a nos dizer quando confrontada com as injustiças sociais. De certa maneira, a realidade que nos circunda nos leva a um ultimato: ou a paz vem pelo comprometimento em lutar pelos direitos de todos ou só nos resta a indiferença, sinônimo de uma falsa paz.

Essa indiferença é a falsa paz de que o Evangelho acusa quando comparada ao mandamento do amor (Jo 13,34). No Antigo Testamento, a tradição judaica tardia traz a figura do “Go’el”, do “Deus resgatador” (Is 54,5-10). Essa compreensão de um “Deus resgatador” foi usada para ressaltar a compaixão de Deus pelo seu povo, assim, podemos dizer que nem mesmo Deus suporta ou fica em paz ante o sofrimento dos oprimidos. Deus que vê o sofrimento dos pequeninos, não é indiferente. Para a tradição cristã, Jesus é o Príncipe da Paz. Somente n’Ele, o Príncipe da Paz, podemos encontrar respostas para o verdadeiro caminho para a paz: “Deixo-vos a paz, lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (Jo 14-27).

A paz de Cristo, diferente da paz do mundo, vem do coração. É a paz da mansidão, da incapacidade de fazer o mal, da não-violência; liberta do egoísmo e da corrupção, é uma paz que aponta para uma sociedade mais justa e fraterna. Esta paz que Jesus nos deixa é a paz que ele mesmo viveu e o reinado da sua paz se dá nos corações. A paz do mundo é a paz que provém da coerção, garantida pelas armas, pela punição, pelas leis. É importante e imprescindível que existam leis, mas não viver a lei pela lei, o legalismo, a lei é pedagoga: isto é, a lei deve nos ajudar a crescermos nas nossas responsabilidades, implica o altruísmo e a paz. De certa maneira, quando a lei aponta para a justiça e para a paz, ela ajuda a aperfeiçoar-nos na lei de Cristo, no caminho para a paz que ele nos deixou.

A carta para 50º Dia Mundial da Paz, ressalta: “O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: ‘Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos’ (Marcos 7, 21). Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5, 39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de a lapidar (cf. João 8, 1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mateus 26, 52), Jesus traçou o caminho da não-violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (cf. Efésios 2, 14-16)”.

Essa proposta da não-violência, para além do ano novo, é para toda a vida. O fato de ser uma mensagem de ano novo é porque o ano novo traz uma mística: é um tempo de viver de bem com o outro, é um novo tempo, um tempo de paz, um tempo de renovação. Por vezes não conseguimos encontrar forças para recomeçar nos meses que faltam para acabar o ano, mas o ano novo traz esse mistério que nos dá essa disposição para recomeçar, para fazer diferente. É um marco na nossa vida, que esse marco seja verdadeiramente para nós uma renovação, tempo de deixar coisas que não acrescentam para trás, e assim, olharmos para frente e continuar.

Desta forma, a mensagem que o Papa Francisco nos deixa para o ano de 2017, é que “comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz”.  

Autor: João Paulo Penco - 4º Ano de Teologia