Fraternidade e superação da Violência

FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA

 

Fraternidade e superação da violência é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2018, que será lançada na quarta-feira de Cinzas e se estenderá durante o restante do ano, não somente no tempo da quaresma. O lema desta campanha será: “Vós sois todos irmãos” e, por meio do seu Texto Base, a CNBB, que promove esta campanha, nos oferece um conteúdo muito rico de reflexões, com estatísticas, objetivos, visão histórica e bíblica. E traz, também, os apelos de como nós, Igreja, podemos construir uma cultura do diálogo e de paz, deixando claro o papel de cada um no processo de superação da violência: “é indispensável compreender que a violência não é um caso apenas reservado ao tratamento policial, à lei, mas é uma questão social que requer a atenção e a participação de toda a sociedade para ser enfrentada” (Texto Base, 7).

Faço, a seguir, uma pequena explanação em relação ao tema da violência, no sentido de contribuir para a reflexão.

Primeiramente, penso que devemos ter claro o que significa violência. A violência é o uso injusto da força: física, psíquica ou moral, no intuito de privar alguém de um bem a que tem direito: vida, saúde, liberdade, ou em vista de impedir-lhe uma opção livre, coagindo-o a fazer até o contrário aos seus interesses. A violência pode ser evidente ou oculta, legalizada ou institucionalizada. “De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência se caracteriza pelo uso intencional da força contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo de pessoas. Essa violência pode resultar em dano físico, psicológico ou morte” (Texto Base, 6).

 

Quais seriam as causas da violência?

A atual sociedade, industrializada, urbana e consumista, apregoando a filosofia do bem-estar, da corrida ao lucro, da primazia do ter sobre o ser, e gerando a crise da família, a solidão e o anonimato, é foco de violência. A sociedade de consumo, marginalizando as pessoas que não podem produzir e consumir torna-as inadaptadas e rebeldes; destrói os valores morais, que são a única força capaz de conter os impulsos instintivos da violência e do mal existentes no coração do homem. A sociedade que exalta, como valores supremos, o prazer e o dinheiro; que aplaude o sucesso e a riqueza obtidos por quaisquer meios; que despreza o homem honesto como sendo fraco e covarde, e exalta o astuto que prevalece sobre os demais, oferece ocasião a que pessoas que não tenham recebido formação moral e se sintam marginalizadas se vejam tentadas a recorrer à violência para ganhar, com facilidade e rapidez, muito dinheiro. A inépcia da sociedade e das autoridades para impedir tais façanhas convence os delinquentes de que ‘a violência vale a pena’ e vem a ser o instrumento mais eficaz para acumular dinheiro rapidamente.

Outro fator importante a observar é o desprezo dos criminosos para com a vida humana como consequência do processo de secularização e dessacralização do homem. Já não se vê no homem a imagem e semelhança de Deus, em virtude da qual a pessoa é algo de respeitável e intocável. Se a pessoa não é senão um vivente como os demais, por que não pode ser eliminada e trucidada, se cria obstáculo aos desígnios de quem cobiça algo? Uma sociedade que não respeita os idosos (vida) e legitima o aborto (matar um ser humano inocente – violência máxima que se possa conceber) perde a autoridade para coibir criminosos que a incomodam e que alegam ter o direito de ganhar seu dinheiro.

Pode-se concluir que o nexo existente entre secularização e violência se deve à perda do senso religioso do mundo atual. Se não há Deus, não há fundamento para as normas morais; se Deus não existe, tudo é permitido: Dizia o existencialista[1] Sartre: “Se Deus não existe, nós não encontramos diante de nós valores e ordens em condições de legitimar a nossa conduta. Assim, nem atrás nem diante de nós, em um domínio luminoso de valores, não temos justificações nem desculpas. Estamos sós, sem desculpas” (SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo, 1946. In: REALE, Giovanni. História da Filosofia, v. 3; São Paulo: Paulus, 1991, p. 610-611). Para ele, o homem não recebe e não encontra sobre a terra nenhum sinal que lhe sirva de orientação ou de socorro. Ele decifra, por si mesmo, o sinal (quando houver) como melhor lhe parecer. Assim, ele pensa que o homem, sem ajuda nem apoio algum, está condenado a todo instante a inventar o homem: “O Homem inventa o homem”.

De acordo com esse pensamento, se Deus não existir, nada será mudado, encontraremos as mesmas normas de honestidade, de progresso, de humanismo, e teremos feito de Deus uma hipótese ultrapassada que morrerá tranquilamente e por si. Se Deus não existe, não pode haver nenhum bem absoluto, já que não há consciência infinita e perfeita para o conceber. Em parte alguma está escrito que o bem existe, que é preciso ser honesto, que é necessário não mentir, pois, então, precisamente, nos colocamos num plano em que há somente homens. O Papa Paulo VI já denunciava este humanismo absoluto: “Poderia aparentemente triunfar um humanismo, limitado, fechado aos valores do espírito e a Deus, fonte do verdadeiro. O homem pode organizar a terra sem Deus, mas sem Deus só a pode organizar contra o homem. Humanismo exclusivo é humanismo desumano. Não há, portanto, verdadeiro humanismo, senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exata do que é a vida humana. O homem, longe de ser a norma última dos valores, só se pode realizar a si mesmo, ultrapassando-se. Segundo a frase tão exata de Pascal: ‘O homem ultrapassa infinitamente o homem’” (Populorum Progressio, 42, 1967).

Apelar ou concordar com a violência é viver num mundo sem Deus, é a verdadeira ‘Babel’, ordem da opressão do demônio-besta: “Conseguia que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, imprimissem na mão direita ou na fronte uma imagem da besta” (Ap 13, 16). Afastar-se de Deus é atrair o mal sobre a humanidade e sobre si mesmo (Rm 1, 18-22. 28-31).

 

Como podemos combater a violência?

Opor-se à violência implica enfrentar os interesses de grupos poderosos: indústria cinematográfica, filmes, novelas, tráfico de drogas, mundo da prostituição, bandos mafiosos bem organizados etc. A violência é hoje altamente rendosa e se liga a interesses de primeira grandeza no plano material. Daí a dificuldade em combatê-la. Ademais, também se devem ponderar as grandes dificuldades existentes para se eliminar as causas sociais da violência. A atual sociedade industrializada opõe toda a resistência a qualquer mudança.

Apesar de tudo, as pessoas de ideais, especialmente os cristãos, não se entregam ao pessimismo: ao lado de linhas sombrias, a sociedade contemporânea apresenta, igualmente, energias e forças vitais capazes de serem mobilizadas para o bem.

Com frequência, dizemos que estamos vivendo em meio a uma sociedade cada vez pior e injusta. Porém não nos esqueçamos de que, desde o Deuteronômio: “Os filhos degenerados pecaram contra Ele, são uma geração depravada e pervertida” (Dt 32,5); passando pelo Evangelho: “Gente sem fé e pervertida! Até quando deverei ficar com vocês? Até quando terei que suportá-los?” (Mt 17,17). E a primitiva comunidade eclesial: “Salvem-se dessa gente corrompida” (At 2,40). Ou, ainda: “Façam tudo sem murmurações e sem críticas, para serem inocentes e íntegros, como perfeitos filhos de Deus que vivem no meio de gente pecadora e corrompida, onde vocês brilham como astros no mundo” (Fl 2,14-15). Na história, sempre existiram os mesmos desafios e experiências, o importante é ter consciência de ser, no mundo, tochas que brilham e ofereçam uma luz de esperança.

 

Tarefas que se impõem com urgência:

1ª) Restaurar, na consciência do público, a noção dos grandes valores morais relativos ao homem, à sua vida e à sua liberdade; a primazia da pessoa sobre o dinheiro, o poder e o prazer; os conceitos de fraternidade, solidariedade e justiça. O despertar destes valores não é possível sem explícita referência a Deus. É o absoluto de Deus que fundamenta o absoluto do homem e impede que este seja sacrificado aos ídolos do dinheiro, do prazer e do egoísmo. Por mais que a sociedade humana tenda a secularizar-se e laicizar-se, torna-se, também, sempre mais evidente que, sem Deus, não há respeito ao homem e aos valores morais. Perante a agressividade dos instintos humanos, qualquer pregação de filantropia leiga é inútil e facilmente burlada.

2ª) Não basta, porém, revigorar os valores morais e a educação para os mesmos. Impõe-se, ainda, a grande tarefa de eliminar as causas sociais da violência, tanto as evidentes quanto as ocultas. É para desejar que as instituições civis e governamentais funcionem devidamente, promovam o bem comum, a magistratura e a administração da justiça cumpram seu dever com presteza e com retidão imparcial. Também é preciso combater as pragas sociais da marginalização e da exclusão, com políticas públicas adequadas.

Como se vê, não podemos esperar para agir. A passividade dos responsáveis implica deixar que as chagas sociais gangrenem e permitam o acúmulo de cargas de violência que, cedo ou tarde, explodirão, com maiores danos para o bem comum, em que todos serão atingidos. “E se vocês não mudarem o modo de pensar e agir, isto é, não se converterem, vão perecer, todos, do mesmo modo” (Lc 13, 3).

Tenhamos em conta, também, estas duas verdades antropológicas fundamentais: 1ª) Cada um de nós e todos temos a capacidade de superar o mal e refazermos o caminho do bem. Vida é dom de Deus. 2ª) Corresponsabilidade fraterna. Quando alguém erra, a culpa também é nossa, pois temos o dever de colaborar para a vida e recuperação dos outros. O mal será sempre uma denúncia contra nós: não fomos tão bons, luz, sal, fermento, na sociedade.

 

Alguns princípios bíblicos muito importantes e necessários para nossa vivência em sociedade:

1º) A Bíblia diz que o homem merece respeito porque é imagem de Deus.

2º) Cristo é contra a Lei do Talião (fazer só a mesma medida). Ele nos diz para “Amar os inimigos” (Mt 5,35-41).

3º) Cristo adota uma atitude de perdão (Jo 8, 1-11).

4º) Deus usa de paciência e misericórdia: “Não quero a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”. Deus não perde a esperança no ser humano. A violência é uma desesperança do homem, que não condiz com a atitude de Deus.

5º) Jesus ensina que a ordem violada no Reino não será restaurada condenando à morte o culpado, mas multiplicando o bem. Ex: na cruz, Jesus perdoa o ladrão arrependido e os seus executores. Contra uma cultura do mal, devemos propor condições para o bem. Multiplicá-lo.

6º) Jesus foi vítima da pena de morte (escândalo para a humanidade). Quem foram os culpados? Pilatos (poder político), Fariseus (poder religioso), Saduceus, Anás e Caifás (poder econômico e ideológico) e, enfim, o povo: “Vocês querem Barrabás ou Jesus?”.

7º) Na consagração, repetimos as palavras de Jesus: “Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 14-23).

8º) Jesus veio recuperar o que estava perdido (Mt 9, 12-13) e está presente em cada um de nossos irmãos, principalmente nos que mais precisam ser transformados (Mt 25, 31-46).

Enfim, penso que nós, cristãos, temos o dever e o compromisso de dar testemunho da vitória da vida sobre a morte. Lutamos para defender e promover a vida. Cremos no Deus ‘autor da vida’ (At 3, 15). “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Em meio a uma cultura de morte, denunciamos e condenamos todos os crimes pessoais e coletivos contra a vida. Também repudiamos propostas e práticas que solapam e negam os valores básicos da dignidade humana e da vida em fraternidade e comunhão.

Sabemos que estamos vivendo graves problemas de justiça e de ordem moral, também, que a violência germina e cresce no laboratório social em que prevalecem a iníqua distribuição de renda, corrupção, narcotráfico, impunidade e marginalização, sem mencionar as graves deficiências no campo da habitação, saúde e educação. Portanto, quando anunciamos o Reino de Deus, também temos que denunciar tudo aquilo que impede a sua implantação:

- perseguição e morte de líderes comunitários, padres e trabalhadores;

- extermínio de crianças, jovens e adultos;

- linchamentos, assaltos, sequestros e homicídios a sangue frio;

- má destinação e distribuição da terra;

- política econômica (escravidão econômica e graves consequências);

- poder político e econômico a serviço de interesses;

- desempregos, salários de fome e diferença extravagante entre o salário do povo e de um parlamentar ou magistrado;

- policiais despreparados, impunidade, corrupção etc;

- incapacidade de o Estado proporcionar boa educação às crianças e jovens. Estes serão candidatos à universidade ou à cadeia?

 

Algumas sugestões como conclusão desta reflexão:

- participação comunitária e organização popular: Fóruns, ONGs etc;

- Agilização e vigilância da justiça. Revisão da função do Sistema Penitenciário;

- Governos para o Bem Comum: Políticas Públicas, Orçamento Participativo, Educação... etc.;

- Proteção da vida e do meio ambiente;

- Conversão das mentes e corações.

 

Boa reflexão e que Deus colha muitos frutos de todas as nossas ações.

Maringá, 29/01/2018

 


[1] O existencialismo é uma filosofia contemporânea segundo a qual, no homem, a existência, que se identifica com sua liberdade, precede a essência; por isso desde nosso nascimento, somos lançados e abandonados no mundo, sem apoio e sem referência a valores; somos nós que devemos criar nossos valores através de nossa própria liberdade e sob nossa própria responsabilidade.

Autor: Padre Leomar Antonio Montagna