Homilia dominical

Reflexão: Liturgia do VIII Domingo do Tempo Comum A – 26/02/2017

CONFIANÇA PLENA EM DEUS, MAS NÃO PASSIVA

Na Liturgia deste Domingo, VIII do Tempo Comum, veremos, na 1a Leitura (Is 49, 14-15), que o amor eterno de Deus para com seu povo é maior que o amor de uma mãe para com seus filhos. O Profeta Isaías nos diz que Deus ampara (amor de mãe) seu povo. Deus, assim como a boa mãe, ama o filho, não porque, necessariamente, é bom, mas porque é filho.

 

Na 2ª Leitura (1 Cor 4, 1-5), o apóstolo Paulo nos diz que a tarefa do líder consiste em colocar-se a serviço da comunidade e ser administrador do projeto de Deus. Qualquer outra postura gera divisão no interior da comunidade. Paulo tem consciência de ter oferecido o melhor de si, portanto, não se preocupa com o que possam dizer ou pensar dele. Ele põe toda a confiança em Deus. "Cada um receberá de Deus o louvor que tiver merecido".

 

No Evangelho (Mt 6, 24-34), Deus é comparado a um Pai providente que cuida dos filhos e provê as suas necessidades. Jesus nos convida a uma única preocupação: o Reino de Deus. A luta pela sobrevivência não pode ser travada com determinados valores estabelecidos na sociedade, os quais propõem o consumismo e a acumulação. A dignidade humana é o valor maior, só poderemos contemplar os lírios do campo, quando nos ocuparmos com a vida e não com as aparências estéticas. Ou seja, só poderemos ver o essencial quando os acessórios ou penduricalhos não prenderem o nosso coração.

O Evangelho nos fala que o serviço ao dinheiro cria inúmeras servidões e espalha violência e opressão, escravidão e morte. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho, sobre os desafios da evangelização, 2013, capítulo IV), recorda que, se a dimensão social não se explicita devidamente, corre-se sempre o risco de desfigurar o significado autêntico e integral da missão evangelizadora da Igreja. Sem a consciência dessa dimensão, as pessoas poderão não se comprometer com os valores evangélicos, necessários para uma verdadeira transformação da sociedade. Percebemos, em alguns lugares, o consentimento ao mal e, muitas vezes, de forma coletiva, o que leva à marginalização social.

“O consentimento ao mal, que é um sinal preocupante de degeneração, intelectual, espiritual e moral não só para os cristãos, está produzindo, em numerosos contextos, um desconcertante vazio cultural e político, que torna incapazes de mudar e renovar. Enquanto as relações sociais não mudarem e a justiça e solidariedade permanecerem ausentes e invisíveis, as portas do futuro fecham-se e o destino de tantos povos fica aprisionado num presente cada vez mais incerto e precário” (Pontifício Conselho Justiça e Paz. Para uma melhor distribuição da terra – o desafio da reforma agrária, 1998, nº 61).

A partir da encíclica Caritas in Veritate (Sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, 2009, nº 34), podemos levantar uma questão: É possível sonhar com uma economia fraterna? O Papa Bento XVI diz: “No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos perniciosos do pecado, há muito tempo que se acrescentou também o da economia”. A economia não pode mandar na política e em todas as esferas da sociedade, pois, senão, elimina-se da história a esperança cristã. Em outro documento, ele afirma: “Esta visão programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a atual crise de fé que, concretamente, é, sobretudo, uma crise de esperança cristã (Spi Salvi, sobre a esperança cristã, 2007, nº 17).

Mas, pela primeira vez, em documentos oficiais, e por meio do Papa Francisco, vemos uma reprovação total do sistema capitalista e a rejeição a uma economia da exclusão:

“Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. O ser humano é visto como: um bem de consumo, descartável, resíduo, sobra.... Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma” (EG, 53 e 54).

 

Boa reflexão e que possamos produzir muitos frutos para o Reino de Deus.

 

Pe. Leomar Antonio Montagna